Os rituais são eventos que organizam o tempo, não só no momento em que ocorrem, mas também nas suas reiterações, seus refazeres ao longo da história. E por mais que os rituais tenham um senso de tradição – fixidez, estabilidade – não deixam de estar sempre abertos a novas interpretações. É isso que se observa na Sagração (2025) da Cia de Dança Deborah Colker, invocada para fechar a trilogia vinda de dois trabalhos anteriores: Cão sem Plumas (2017) e Cura (2021).
A versão original da Sagração da Primavera (1913) estreou em Paris à maneira de uma obra ritual, que não pôde ser compreendida de imediato. A rítmica elaborada e harmonias dissonantes de Igor Stravinsky, aliada à coreografia de Vaslav Nijinsky que se opunha à técnica do balé clássico, geraram uma reação de escândalo na plateia. Hoje o que se questiona é o real motivo desse escândalo. Há quem diga, romanticamente, que Stravinsky estava à frente de seu tempo, que seria “genial” demais para aquela época. Outros argumentam que o alvoroço no teatro espelhava os conflitos socioculturais que já abalavam a Europa, às portas da Primeira Guerra Mundial. Há ainda os que defendem que, dadas as referências primitivistas e não-ocidentais da Sagração, se trataria de uma manifestação de xenofobia e até racismo.
O escândalo da plateia de 1913 como racismo diz muito sobre um ponto de vista europeu e exótico em relação ao outro, e é nesse aspecto que as releituras atuais da obra trazem contribuições importantes. Trazer, hoje, a Sagração para as terras do Sul global é um jeito de dar a outra perspectiva e não mais ser objeto do discurso do outro: é sobre falar de si e dos seus.

É por isso que a Sagração de Colker não é só da primavera, mas de todos os tempos: tanto porque no Brasil não temos as mesmas demarcações de estações do ano que o velho continente europeu, quanto porque nossas cosmologias de hoje revelam o conflito entre o linear e o cíclico. O arco narrativo da coreografia mescla a ciência que traça a linha reta da origem da vida ao apocalipse climático (que tem a mesma linearidade temporal da perspectiva cristã) e a circularidade temporal dos povos originários, esta que resiste em manter-se conectada à natureza e seus ciclos.
Esses embates entre linearidade e circularidade se manifestam na complexidade da estrutura musical: a música orquestral de Stravinsky é posta em diálogo com cantos cerimoniais, flautas e percussão de nossos povos originários, abarcando também as escalas pentatônicas e a rítmica latino-americana. À circularidade própria dos loopings e samples da composição musical eletrônica, realizada inicialmente por Alexandre Elias, soma-se a linearidade temporal da partitura, para a qual Rodrigo Morte precisou transcriar a criação de Elias e, assim, torná-la executável para a Osesp. Mesmo ainda tocando de costas para a dança – uma limitação que resulta da adaptação de uma sala de concertos para sala de espetáculos – a Osesp mostra-se à altura dos desafios técnicos de criar música para dança na atualidade.
A partir dessa composição sonora de muitas vozes, a coreografia de Colker desenvolve-se cena a cena, em complexas formações acrobáticas com bambus e paus de chuva. Contrariando a tradição, essa Sagração não finaliza em sacrifício humano, pois decide abordar a morte de um viés mais ecológico: o da destruição da natureza e, consequentemente, da própria humanidade. É uma opção ousada, mas justificável pela trilogia da qual a obra faz parte. É uma Sagração que tem a intenção de curar o mundo, que emaranhada nos conflitos entre desenvolvimento e ancestralidade aponta o sonho como direção para a nossa sobrevivência. A vocação ritual que essa obra carrega desde sua origem convoca quem a recria a invocar novos futuros.






Sagração (2025)
Cia de Dança Deborah Colker
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Criação, direção e dramaturgia: Deborah Colker
Direção executiva: João Elias
Música: Temas de A sagração da primavera [1913], de Igor Stravinsky [1882-1971], e canções dos povos Kuikuro, Tukano Yepa-Masã, Huni Kuin, Bororo-Boe e Karajá-Iny
Direção musical e composição: Alexandre Elias
Orquestração: Rodrigo Morte
Regência: Claudio Cruz
Direção de arte: Gringo Cardia
Dramaturgia: Nilton Bonder
Figurinos: Claudia Kopke
Bailarinos: Angélica Bueno, Diego Endrigo, Gabriel Mendonça, Gustavo Guta, Hugo Lopes, Jáde, João Gabriel Alves, Leonardo Molina, Lorenna Souza, Luan Batista, Sofia Camargo, Vanessa Fonseca, Washington Silva, Yasmim Gonçalves e Yasmin Mattos
Fotos: Íris Zanetti
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Referências
EKSTEINS, Modris. A sagração da primavera: a grande guerra e o nascimento da era moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. Disponível em: https://annas-archive.org/md5/0c6cbbc8e3f8b0dde0866c483b40454e. Acesso em 15 mar 2025.
HAN, Byung-Chul. O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.
LEVITZ, Tamara. Racism at The Rite. In: The Rite of Spring at 100. Bloomington: Indiana Uiversity Press, 2017. cap. 2, p. 146-178. Disponível em https://annas-archive.org/md5/36fcbaa1f982007c44648913ae7e4b65. Acesso em 16 mar 2025.