Durante meu mestrado na Unicamp em 2020, meu orientador Jorge Luiz Schroeder organizou um grupo de estudos sobre música e dança, em que havia frequentadores fixos e convidados semanais para refletir sobre o tema. Um dos frequentadores fixos era o Divan Gattamorta, um dos músicos de dança participantes da fundação do Departamento de Dança da Unicamp. Jorge, Divan e também Nenem Menezes, todos músicos de dança de longa data, me ensinaram muito durante aquele período.
Por isso fiquei muito feliz quando, ano passado, Divan me convidou a sucedê-lo na disciplina de Música do Núcleo Luz, um belíssimo projeto de formação em dança com a consistência de seus 17 anos de duração. Era como se eu fosse a próxima em uma linha de sucessão universitária, como dar continuidade e desenvolvimento a uma tradição iniciada por eles. E assim foi.
Trabalhar no Núcleo Luz, conhecendo tão de perto a carinhosa direção artístico-pedagógica de Chris Belluomini, foi uma experiência linda. Por um lado, me foi confiado o instigante desafio de dar aos aprendizes um panorama do que é essencial e necessário à formação musical de artistas de dança, em menos de seis meses. Por outro, a vivência de lecionar em um ambiente pedagógico que prezava pela coletividade e pela autonomia – tanto para os aprendizes quanto para os professores. Não, coletividade e autonomia não são características opostas ou excludentes, mas é preciso de muita sensibilidade para fazê-las caminhar lado a lado. Isso a diretora Chris tinha de sobra.
Eu gostaria de trabalhar no Núcleo Luz por mais uns dois séculos, se não fosse decretado o contraditório fim do projeto no segundo semestre de 2024. Este ano, Chris Belluomini ganhou o prêmio especial da comissão de dança do APCA 2024 em reconhecimento da direção e duração do Núcleo Luz: é mais que merecido, porém é pouco frente à qualidade do que vinha e ainda viria a ser criado. Destaca-se o acolhimento genuíno à população de baixa renda e LGBTQIA+, dificilmente equiparável por outros modelos de projeto. A dança de São Paulo perde muito, mas para quem teve a honra de conhecer o projeto fica a semente do que a educação de dança pode ser, e ela há de germinar.
