Numa de suas poucas porém muito apreciadas aparições em São Paulo, o Grupo Corpo trouxe em 2024 uma de suas obras mais integralmente mineiras: Dança Sinfônica (2015). Em parceria com a Osesp, a obra foi par de programação com o balé Estancia (2023), a primeira criação do coreógrafo Rodrigo Pederneiras para ser dançada especificamente com orquestra ao vivo. Trata-se de uma prática muito nova e corajosa do Grupo Corpo, que desde sua estreia sempre teve notoriedade pelo uso de música de estúdio de alta qualidade composta para dança, e às vésperas do aniversário de 50 anos da companhia aventura-se a compartilhar o palco com os músicos.
Porém engana-se quem imaginar, julgando pelo título da coreografia, que a Dança Sinfônica do Grupo Corpo tenha em si apenas música sinfônica, que a música dessa dança pudesse ser contida dentro das cinco linhas do pentagrama musical. Acostumados com a autoria quase sempre única dos grandes clássicos das salas de concerto, regentes desavisados podem ter dificuldade para acompanhar tal multiplicidade de gestos musicais e coreográficos, que nesse caso não são feitos apenas por duas, mas por muitas mãos (e pés, e pernas, e todo o Corpo).
Dança Sinfônica é um balé de 2015 que comemora os 40 anos da companhia, que pela dimensão da ocasião reuniu três grandes grupos artísticos do estado de Minhas Gerais: Grupo Corpo, Grupo Uakti e Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. À época, a parceria do Corpo com o grupo de música instrumental Uakti, liderado por Marco Antônio Guimarães, já vinha de longa data e se mostrava consolidada com os balés 21 (1992), Sete ou oito peças para um balé (1994) e Bach (1996). A Dança Sinfônica de 2015, portanto, é tanto uma homenagem a esses balés anteriores quanto fruto de um delicada combinação da inteligência de timbre e ritmo do grupo Uakti, de técnicas tradicionais de composição orquestral e de refinados procedimentos de gravação e mixagem sonora.
Tudo isso é o que faz Dança Sinfônica soar em álbum da maneira como soa. Porém o que ocorre na transposição disso tudo para a pura música ao vivo? Há que se considerar, em primeiro lugar – e é aqui que muitos especialistas da chamada ‘música erudita’ se perdem – que gravação em estúdio não é mero registro, é por si só um modo de composição musical. Em estúdio pode-se manipular com facilidade, por exemplo, algo que é bem mais delicado (às vezes impossível) de ser feito com orquestra ao vivo: a espacialidade do som, o que fica na frente e o que fica no fundo, o que passa de um lado para o outro no fone de ouvido. E foi completamente em estúdio que a sonoridade do Uakti foi desenvolvida: como transpor toda essa especial sonoridade para a orquestra?
Nesse sentido, é possível dizer que a música de Dança Sinfônica não é somente de Guimarães, mas igualmente do regente Fabio Mechetti e do produtor de gravação Ulrich Schneider, os responsáveis por coreografar o movimento do som que está para além da partitura na gravação original de 2015. O problema é que todo esse movimento sonoro não está contido na partitura original do balé, pois é posterior à sua escrita – tanto o da produção musical quanto do próprio Uakti. Problema maior é que numa rotina de ensaios como a do Grupo Corpo – ainda mais de uma obra que existe há quase dez anos – a gravação é ouvida e reouvida com tanto cuidado e atenção que cada mínimo detalhe sonoro passa a ser crucial para a expressividade da coreografia.
Nesse complexo trânsito de uma música que começou acústica, ganhou mil detalhes ao ser digital e volta a ser acústica, não se pode dar ao luxo de perder nada, pois a dança quer tudo dela. Ou seja: para fazer Dança Sinfônica hoje com orquestra ao vivo é necessário colocar o fonograma de 2015 na mesma importância da partitura da orquestra, e é a partir desses dois registros que um maestro deve encontrar a sua interpretação da obra – no mínimo, pois se considerarmos a necessidade de assistir a gravação do balé já são três registros a serem estudados.
Sendo assim, o trabalho de quem ousa reger Dança Sinfônica não só triplica como também passa a ser muito mais sobre as múltiplas relações entre vários elementos e artistas dessa obra do que sobre sua opinião individualista de como tudo aquilo pode soar. A regência de Dante Anzolini frente à Osesp, nesse caso, parecia-se mais com a segunda opção do que com a primeira: era mais sobre como ele imaginava que ela poderia soar do que como ela já vem soando há tantos anos. Além disso, ouvia-se claros descuidos de técnica em várias seções, bem como escolhas de andamentos um tanto distantes das necessidades coreográficas. Uma solução simples para isso teria sido convidar o maestro Fabio Mechetti, que por ter regido em 2015 já conhece essa música como a palma de sua mão e sabe o que o Grupo Corpo quer dela.
Curiosamente, não se ouvia o mesmo em Estancia, cuja música de Alberto Ginastera (1916-1983) soava viva e segura – e essa vivacidade se refletia na musicalidade e qualidade de movimento dos bailarinos do Grupo Corpo. Talvez porque sua música é mais naturalmente sinfônica, e portanto mais fácil de decodificar por músicos de formação tradicional. Com certeza porque foi coreografada e ouvida desde sempre pelos bailarinos do jeito que ela é.
Em Estancia não foi preciso retraduzir nada para orquestra, pois ela é sinfônica desde sempre. Em Dança Sinfônica não: ela é muito mais que sinfônica e por isso requer, da parte do regente, um olhar artístico muito mais integrado que respeite e reconheça tudo o que ela é e o que ela representa para as relações entre dança e música da atualidade. O problema sonoro-coreográfico que se apresenta aqui não poderia ser mais contemporâneo. Espera-se que o Grupo Corpo siga nessa investigação musical-coreográfica de longa data e possa encontrar novos colaboradores musicais que estejam à altura desse desafio.
Dança Sinfônica (2015)
Coreografia: Rodrigo Pederneiras
Música: Marco Antônio Guimarães
Cenografia: Paulo Pederneiras
Figurino: Freuza Zechmeister
Iluminação: Gabriel Pederneiras e Paulo Pederneiras