Sobre dança de salão, contrabaixos e música contemporânea no Festival de Campos do Jordão

Os frequentadores deste site certamente sabem que eu não abro mão de conectar música e dança. Ao trabalhar no 55º Festival de Inverno de Campos do Jordão, não poderia ser diferente: ao saber que além de todas as atividades musicais o Festival também iria oferecer Técnica Alexander e Dança de Salão, fiz questão de fomentá-las e acompanhá-las de perto.

O Festival de Campos oferece diversas aulas de instrumentos orquestrais, formando classes de um mesmo instrumento, grupos de música de câmara e orquestras das mais variadas formações, além de vários outros eventos. Estando na equipe de organização desse enorme rol de atividades, eu apostava que a classe de percussão estaria mais presente em Dança de Salão — dada a forte relação entre ritmo e dança — porém me surpreendi ao perceber que inicialmente os contrabaixistas eram os mais interessados em dançar. Por que será? Será porque os sons graves atingem o corpo não só pela audição, mas também pelo tato? Será porque os contrabaixistas tocam em pé, já tendo seus grandes instrumentos como pares de quase-dança?

Como frequentar as aulas de dança de salão não foi suficiente para responder a essas questões, fui então assistir a Classe de Contrabaixos do Festival na abertura de concerto do Percorso Ensemble, um grupo independente de música contemporânea. Eram dois grupos que se harmonizavam justamente por suas formações instrumentais excêntricas: os contrabaixos traziam trompetes, trombones e tímpanos como convidados, enquanto Percorso explorava as combinações de voz, flauta, clarinete, violino, violoncelo, piano e vibrafone.

Classe de Contrabaixos do Festival e trombone em ensaio na Estação Motiva Cultural

Em quesito de escolhas musicais, no entanto, os grupos tinham grandes contrastes. Os contrabaixos apresentaram uma série de excertos orquestrais de Haydn a Britten, que foram trabalhados em aula pela Profª Ana Valéria Poles. Todo o refinamento técnico estava ali, pois é um dos pontos fortes das aulas de instrumento do Festival, porém faltava um outro olhar: como transformar uma série de excertos em uma programação artística?

Nisso, a colaboração de membros da Classe de Metais do Festival, trazendo trompetes para Quadros de uma Exposição de Mussorgsky e trombone para Pulcinella de Stravinsky, foi enriquecedora pois mantinha a essência dessas peças mesmo com poucos instrumentos — além de parear instrumentos de densidade sonora compatível aos contrabaixos. Por outro lado, boa parte das peças foram apresentadas em arranjos curtos em uníssono, que embora melódicos e bem executados ainda deixavam saudades de alguma forma de acompanhamento, harmonia e contraponto. Para dar essa variedade aos excertos, seria necessário olhar a música para além da técnica e em termos de composição: a melodia de Frêre Jacques por exemplo, excerto de sinfonia de Mahler, faria muito sentido em cânone como o próprio compositor havia proposto, e ficaria muito bem logo após o recitativo da nona sinfonia — ambas na tonalidade de ré. É claro que Beethoven se surpreenderia com essa recomposição e Mahler não teria imaginado uma orquestra só de contrabaixos, mas acredito que ambos aprovariam uma ousadia dessas em um concerto tão contemporâneo.

Diante disso tudo, minhas questões iniciais sobre dança ficaram em aberto, porque a correspondência entre som e movimento nem sempre é direta ou imediata. No entanto, a corporalidade que eu não encontrei no concerto de contrabaixos estava, na verdade, no Percorso Ensemble. A ênfase irrestrita na música contemporânea, que caracteriza o Percorso, permite que ele se contamine com os hibridismos da dança e das artes cênicas. Isso não é só de hoje: o grupo inclusive já colaborou com a São Paulo Companhia de Dança, como escrevi anteriormente aqui.

Ricardo Bologna, regente do Percorso, fez muito bem em não desvestir o papel de professor do Festival, apresentando didaticamente as peças de um concerto que corria o risco de se tornar hermético aos não iniciados. Homenageando os centenários de Pierre Boulez e Luciano Berio, este programa do Percorso tinha um caráter sonoro muito gestual. Era isso que também tornava o concerto acessível ao público, pois é a intenção de gesto que transforma a cerebralidade desses compositores em música.

Gesto não é algo para ser somente ouvido, mas principalmente visto. Nessa sentido, o programa também estreava Go Sound, de Alexandre Lunsqui. Interpretada com grande presença cênica pela violinista Eliane Tokeshi, a obra trata da difusão do som no espaço através do movimento do corpo e do próprio instrumento musical. Em Go Sound, o som é literalmente físico, arremessado em diversas direções, e assim a intérprete torna visível e sensível toda a tridimensionalidade sonora da qual, muitas vezes, nos esquecemos.

Eliane Tokeshi em Go Sound

Ainda sustento hipóteses sobre uma conexão especial entre os graves dos contrabaixos e a dança, porém conforme o Festival prosseguia foi possível ver a dança de salão ganhando corpo, contando com a presença de cada vez mais músicos de todos os instrumentos possíveis. Pode ser que eles tenham se inspirado a dançar logo após tocarem Antrópolis, de Gabriela Ortiz e, tomados pelo espírito do ritmo e da celebração, reuniram-se — não, reunimos-nos! — numa grande última aula de dança. Nosso professor de dança Luiz Renato Paz teve a sabedoria de nesse momento finalizar a aula com uma grande quadrilha, deixando memórias sonoras em movimento e expectativas dançantes para os festivais que virão.


Classe de Contrabaixo do Festival
Antonio Domiciano, Daniel Mengarelli, Daniel Oliveira, David Moraes, João Paulo Nunes, Leonardo Oliveira, Matheus Mayer e Nathan Parente

Participações especiais: João Marcos de Sousa (trombone), Kalebe Requena (trompete), Lucas Espírito Santo (trompete) e Nathan Granero (tímpano)

Giuseppe Verdi – Otello: Solo do 4º ato
Joseph Haydn – Sinfonia nº 31 em Ré maior: Tema
Benjamin Britten – Guia da Orquestra para os jovens, op. 34: Var. 8, contrabaixos
Igor Stravinsky – Pulcinella: Vivo
Modest Mussorgsky – Quadros de uma exposição: 4. Samuel Goldenberg
Gustav Mahler – Sinfonia nº1 em ré maior: 3º movimento
Ludwig van Beethoven – Sinfonia nº 9 em ré menor, op. 125: Recitativo

Percorso Ensemble
Ricardo Bologna (regência), Manuela Freua (voz), Cássia Carrascoza (flauta), Bruno Ghirardi (clarinete), Eliane Tokeshi (violino), Douglas Kier (violoncelo), Horácio Gouveia (piano) Heri Brandino (vibrafone)

Thea Musgrave – Ring Out, Wild Bells (1995)
Pierre Boulez – Notations (1945-1987)
Luciano Berio – O king (1968)
Alexandre Lunsqui – Go Sound (1969)
Luciano Berio – Sequenza I (1958)
Pierre Boulez – Dérive I (1984)

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