Quando o maestro Roberto Minczuk escolheu a popular valsa Danúbio Azul para ser o bis do último concerto da Orquestra do Festival – em edição de homenagem ao compositor alemão Johannes Brahms – houveram questionamentos. Por que uma valsa de Johann Strauss Jr. e não do próprio Brahms? Por que uma obra que, por mais que seja música sinfônica, é muito mais música de dança?
Essa foi uma provocação colocada pelo diretor artístico e maestro Roberto Minczuk no 56º Festival de Inverno de Campos do Jordão. Foram atendidos 280 músicos bolsistas em uma edição que envolveu uma montagem da ópera A Flauta Mágica de W. A. Mozart, a obra sinfônica e camerística de Brahms, além de concertos com repertórios mistos de professores e alunos do Festival.
As respostas às questões do bis são várias, e se complementam. Para os 140 músicos bolsistas das duas últimas semanas do Festival, que estiveram imersos nos dois concertos dedicados às sinfonias 1 a 4 de Brahms, as alusões à valsa ficaram evidentes nos tempos ternários e em suas frequentes hemíolas1. Essa alusão tornou-se fato, até mesmo evidência quando Minczuk justificou sua escolha de bis: Strauss Jr. era o compositor favorito e um grande amigo de Brahms. Reza a lenda que esse último, ao dar um autógrafo, teria manifestado sua admiração ao escrever os primeiros compassos da partitura do Danúbio Azul e lamentar logo abaixo: “Infelizmente, não é de Brahms”. Essa anedota nos diz que a dualidade entre a música séria de Brahms e a música ligeira2 de Strauss, embora exista, não é estática e sempre acaba por convidar ao difícil equilíbrio entre o peso e a leveza.

Assim como o minueto foi inspiração para os compositores sinfônicos clássicos (Haydn, Mozart e Beethoven), a valsa inspirou os românticos, sendo Brahms um deles. Toda dança entra na composição de sinfonias não mais como atividade à qual a música deve dar suporte, mas como material sonoro: ritmos e gestos melódicos, antes dançados, aqui se tornam ideias de movimento que passeiam pela orquestra. Esses materiais, mesmo tingidos pela dramaticidade cerebral de Brahms, ainda preservam suas raízes dançadas, e aí e é que estava o desafio proposto à orquestra pelo maestro Minczuk – e por sua escolha de bis -, o desafio de sustentar a densidade sonora sem perder o groove.
Sim, o groove. Minczuk repetia o pedido de groove ao longo dos ensaios tanto com ironia quanto com razão. Essa expressão, que se refere ao balanço que músicas afro-latinas, rock e jazz trazem ao corpo, vinha tanto como um pedido para que os músicos da orquestra tocassem em sintonia uns com os outros quanto para que transformassem a partitura no que está além dela, convidando o público a participar fisicamente do que escuta. Porém se soava irônico pedir a ginga do groove às austeras sinfonias de Brahms, é bom saber que nem só de Brahms viveu o Festival: nada melhor do que um concerto de baixos e percussão (os responsáveis pela seção rítmica de diversos gêneros musicais) para colocar o groove em evidência.

Superando-se em relação ao ano passado, a Classe de Contrabaixos do Festival apresentou um repertório diversificado de curadoria da prof. Ana Valéria Poles, indo da música sacra medieval ao rock dos anos 1980. Diante do experimento de arranjar músicas para dez contrabaixos, é interessante observar os resultados. Em um arranjo para solista e acompanhamento da Elegia de G. Bottesini, ouvir harmonias em um grupo de instrumentos tão graves é como tentar enxergar com pouca luz: aos poucos, o olhar vai se habituando e passa a apreciar o que há de soturno no ambiente, embora não entenda os contornos com clareza. Era clara, no entanto, a alegria do grupo em executar os arranjos Contrabajeando de Astor Piazzolla e o inesperado Sweet Bass o’ Mine de Guns n’ Roses: com intérpretes mais apropriados do repertório, intensifica-se o groove, que não é apenas uma dimensão rítmica, mas experiência participativa de som e de movimento.
O Grupo de Percussão do Festival, apresentando-se logo em seguida, dobrou a aposta no groove ao trazer dois compositores brasileiros contemporâneos. Em Três estudos para percussão de Osvaldo Lacerda, há fortes influências de matriz africana e ouve-se o naipe de percussão orquestral bastando a si próprio para além do ritmo, em termos melódicos e harmônicos – o que dá à obra tenha um caráter bastante didático. Em Duelo, de Augusto Moralez, o grupo apresentou uma performance de impacto e clareza das frases rítmicas altamente sincopadas, que ao divergirem para logo retornarem ao uníssono demonstravam o equilíbrio entre o balanço e o rigor da rítmica. Em ambas as obras, era evidente que o grupo sentia o mesmo tempo em cada subdivisão, dinâmica e respiro, o que estabelecia bases para o groove do repertório enquanto dispensava, felizmente, qualquer necessidade de regência.
Entre a música séria e a ligeira, o sinfônico e o popular, o formalismo e a dança, durante o Festival o groove foi um elemento capaz de transitar e de questionar as dualidades. Diante da ênfase na influência da valsa sobre a homenageada obra sinfônica de Brahms, as aulas de dança de salão poderiam ter contribuído para estreitar essa relação – porém neste ano as aulas de Luiz Renato Paz só foram possíveis na etapa de música de câmara do Festival. Fica, para o próximo ano, a expectativa de uma integração ainda maior entre a música e as artes do movimento.




Making of






Orquestra do Festival de Inverno de Campos do Jordão
ROBERTO MINCZUK regente
JOHANNES BRAHMS Sinfonia nº 1 em Dó menor, Op. 68
JOHANNES BRAHMS Sinfonia nº 2 em Ré maior, Op. 73
JOHANNES BRAHMS Sinfonia nº 3 em Fá maior, Op. 90
JOHANNES BRAHMS Sinfonia nº 4 em Mi menor, Op. 98
Alunos da Classe de Contrabaixo e Grupo de Percussão do Festival de Inverno de Campos do Jordão
ANA VALÉRIA POLES professora de contrabaixo
DANIEL DO AMARAL MENGARELLI contrabaixo
ELTON FREITAS XAVIER DA SILVA contrabaixo
GUILHERME ALBERTO DE ALMEIDA PACITO contrabaixo
JOÃO GABRIEL CORONATO contrabaixo
JULIÁN MEDINA professor de contrabaixo
LEONARDO OLIVEIRA DE LIMA contrabaixo
LUIS ALBERTO CUEVAS VÁSQUEZ contrabaixo
MARCOS ANTÔNIO GOMES JÚNIOR contrabaixo
MARIANA PARDINHO REIS contrabaixo
RODRIGO MONTEIRO VILELA DE MIRANDA contrabaixo
RYHAN ALBERTO GARMENDIA COLINA contrabaixo
ERNEST BLOCH Prayer [arranjo de Bernardo Alviz] (1924)
HILDEGARD VON BINGEN O virtus Sapientie [adaptação de Leonardo Andrade] (1180)
CHRISTIE ECHOLS Stand up and listen (2021)
GIOVANNI BOTTESINI Elegie [arranjo de Ana Valéria Poles] (1849)
HEITOR VILLA-LOBOS Ave Maria [adaptação de Leonardo Andrade] (1938)
ASTOR PIAZZOLLA Contrabajeando [arranjo de Carlos Anisio] (1954)
GUNS N’ ROSES Sweet Bass O’ Mine [arranjo de Daniel Camargo] (1988)
GRUPO DE PERCUSSÃO DO FESTIVAL DE INVERNO DE CAMPOS DO JORDÃO
ELIAS JOEL GONZAGA percussão
GUILLERMO MATSCHULAT percussão
JULIÁN EDUARDO GARCÍA PEÑA percussão
RIAN DE PAULA MARTINI percussão
RODRIGO DE ANDRADE percussão
OSVALDO LACERDA Três estudos para percussão (1966)
AUGUSTO MORALEZ Duelo (2018)
56º Festival de Inverno de Campos do Jordão
Direção artística: Roberto Minczuk
Coordenação pedagógica: Arcádio Minczuk
Fundação Osesp
Superintendência Educacional: Rogério Zaghi
Presidente e CEO: Marcelo Lopes
Foto de capa: Ana Clara Miranda
Referências
DUMAN, Deniz et al. Groove as a multidimensional participatory experience. Psychology of Music, [S. l.], v. 52, n. 1, p. 93–116, 2024. DOI: 10.1177/03057356231165327.
MCKEE, Eric. Decorum of the Minuet, Delirium of the Waltz: a study of dance-music relations in 3/4 time. Bloomington: Indiana University Press, 2012.
MURPHY (ED.), Scott. Brahms and the shaping of time. Rochester: University of Rochester Press, 2018.
- Hemíola: o momento em que uma música ternária torna-se temporariamente binária (ou vice versa), retornando logo em seguida à métrica original. É um recurso muito comum em finais de seção de valsas, gerando tensão para o retorno de temas ou finais de obras – nesse caso, ela é chamada de hemíola cadencial (vide exemplos aqui e aqui) ↩︎
- Ligeira, nesse caso, não diz sobre a velocidade da música, mas sobre sua perenidade: a música feita pra dançar é leve, passageira em comparação à música séria e todo o peso lento de se pretender eterna. ↩︎
- Fonte: https://www.reddit.com/r/HistoryPorn/comments/vr3rm9/waltz_king_johann_strauss_jr_with_composer/ ↩︎

