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01. Outro momento, outra vontade, outra história | iN SAiO: Ser Tempo

Diário de ações do projeto Ser Tempo, da iN SAiO cia. de Arte

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Após estrear em São Paulo em 2023 e circular pelo Rio Grande do Sul e Espírito Santo, Miêdka retorna à cena em 2026 por meio do projeto Ser Tempo1, da iN SAiO cia. de Arte. Inicia-se pelos ensaios na EDASP, com apresentação em seis sessões no Complexo Cultural da Funarte.

15 de setembro, EDASP

Claudia e Armando ensaiam na EDASP, ainda sem Ana: tal como no princípio, eles se preparam para recebê-la. Chove há semanas, é um dia frio e silencioso, e por mais que o ambiente da EDASP seja mais isolado do exterior que a anterior Galeria Olido, o trabalho insiste em preservar sua relação com o mundo natural. Armando escolhe posicionar-se numa pequena brecha de sol que entra pela janela, que lhe emoldura e aquece os pés. Claudia, por sua vez, veste a mesma calça de ensaio rasgada, marcada pelos sucessivos encontros com a coreografia.

Já posicionados para dançar, inicia-se a música. Dos elementos naturais que ela traz gradualmente, é o som de água que mais parece acordar o movimento dos corpos, pois mesmo estando dentro da sala de ensaio eles ainda se lembram da chuva que recebiam ali fora. Com toda essa chuva, tem sido difícil encontrar folhas secas para compor o espaço cênico, e é por isso que toda a equipe passa a se conectar com cada variação do clima: é preciso aproveitar as breves secas entre chuvas e recolher folhas externas para o interior – o que não deixa de ser, também, uma forma de recolher-se: algo necessário, pois Miêdka é um trabalho que vem de dentro pra fora.

Essa internalização, no entanto, nunca é individualista pois sempre é mantida a relação intersubjetiva entre eles. Sem ter Ana como referência temporal, o duo passa a terminar de dançar mais cedo do que gostaria. Claudia experimenta cantar tal como Ana – pois Armando tem esse canto como referência e estímulo sonoro – porém eles não ficam satisfeitos com o resultado. O trabalho, tal como antes, continua a pedir pelo encontro dos três.

22 de setembro, EDASP

Ana Mondini está presente. O trio, agora completo, experimenta a simultaneidade das duas vozes cantadas – Claudia e Ana – porém eles não ficam satisfeitos com o resultado. Armando questiona: o que é essa voz em Miêdka? Qual a origem e o sentido dela no trabalho? Se para Claudia a voz era lembrança e preenchimento da falta de Ana, para Ana a voz tem um sentido mais próprio, mais profundo: é um momento de transição entre o humano e o bicho, que ela busca no fundo de sua ancestralidade. Entende-se, então, que os dois cantos não se misturavam bem porque, enquanto um é simulacro, o outro é originário.

A solução está em encontrar, na voz de Claudia, uma expressão que também lhe seja própria, que seja verdadeira e não imitação. Nesse sentido, Ana sugere que os sons vocais de Claudia sejam “mais mato, mais folha”, ou seja, mais naturais e menos humanos. É que a melodia da voz de Ana, se colocada ao lado de outra melodia, convidaria ambas ao diálogo, e não é disso que se trata:

"A gente não tem diálogos, tem espelhamentos; a gente sente presenças como um animal na floresta, mas essa presença pode ser qualquer coisa: uma árvore, um outro bicho, só não é um outro humano. Porém, em alguns momentos nós precisamos ter essa humanidade, porque é o que nós somos."

Ana Mondini

A partir de uma comunicação sem linguagem, mais orgânica do que humana, o trio irá novamente buscar o encontro entre seus três membros, encontro esse que se repete e se refaz há mais de quarenta anos, mas não se esgota nunca pois é sempre outro.

  1. Projeto contemplado pela 39ª edição do Fomento à Dança da Prefeitura de São Paulo. ↩︎

Em breve: próxima página do Diário →

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Comentários
  1. Avatar de Hamilton Ramos
    Hamilton Ramos

    Belo texto. Joga uma luz sobre a obra e dá uma certa intimidade com o processo. Muito bom.