Visão, sensação e imaginação, por Mariana Muniz | iN SAiO

Páginas de um diário de bordo do processo criativo de dança de Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini na iN SAiO cia. de Artes


31 de agosto

A artista da dança e do teatro Mariana Muniz foi convidada a assistir o ensaio de Claudia Palma e Armando Aurich. Utilizando um exercício de “testemunho” da técnica BMM (Body, Mind and Movement) ela relatou sua experiência em três níveis.

1. O que ela viu

Dois corpos, um homem e uma mulher mais velhos, separados e em pé no espaço. Começam a se mover sem sair no lugar, que é um espaço amplo com folhas secas pelo chão. Eles se inclinam e passam a se deslocar pelo espaço, sempre voltados para baixo. Eles parecem não se ver. O deslocamento evoca um círculo. Eles começam a vibrar muito e a rir muito, e vão vibrando nesse riso até um paroxismo.

Os dois mudam, então, de estado, e começam a se mover um em relação ao outro. Começam a falar e a farejar, deslocando-se em quatro apoios até se encontrarem no centro desse espaço. No centro, se mordem e se cheiram até parar.

2. O que ela sentiu

O corpo de Mariana se movia bastante, em inclinações predominantemente de um lado para o outro, em função do que estava sendo visto. Depois de um tempo, ficou parada e quase entrou num estado meditativo. Ao final, a música levou-a a imaginar a presença em um ritual, numa igreja.

3. O que ela imaginou

Mariana imaginou estar testemunhando duas pessoas em um paradoxo temporal, entre um passado distante e um futuro pós apocalíptico. Esse homem e essa mulher teriam sido os que restaram, que sobreviveram, e que nesse momento estão entrando em contato com uma experiência interior. Deste modo, voltam a ter consciência do que são e do que foram.

Ela relacionou essa dança com um universo próximo ao das peças de Samuel Beckett, no qual há personagens sozinhas no mundo, que sobreviveram a algo catastrófico tal qual baratas. São figuras solitárias, que sabem que existe um outro, mas que não conseguem se comunicar com ele.

Ela percebe que esses dois corpos, mesmo parados, já dizem muito, pois carregam muita história. Suas inclinações em direção ao chão retratam a implacável força da gravidade sobre eles, que resistem, mas que também se deixam dobrar para o chão.

A música lhe causou uma impressão pouco territorializada, podendo se referir a qualquer lugar do planeta ou mesmo a outro planeta. O piano, que tem contornos melódicos pouco definidos, provoca a escuta a buscar por uma melodia onde ela não há, e a lidar com o sentimento de não ter o que se procura. Esse mesmo piano provocou emoções intensas à Mariana, pois mesmo nas melodias tortuosas não deixa de ser vibração.

Quando a música ficou mais festiva, era sobre vibrar no prazer. É moderna, mas também é primordial, pois o começo de tudo é a vibração do prazer. Nesse momento, ou você chora ou você ri, e Mariana gostou que a opção tenha sido pelo riso. Ela entende que esse ponto é um ápice da pesquisa pessoal de cada um dos dois.

Quando o riso parou, Mariana sentiu que os dois podiam já falar, dando um suporte para que ela racionalizasse e pudesse continuar junto. Sentiu que ali poderia começar tudo de novo, num eterno retorno próprio de vida, a repetição que é ao mesmo tempo constrangimento e possibilidade de renovação.

Ela ficou com saudade da voz gravada do começo, que poderia ressurgir agora como um elemento de reconhecimento, de memória. A fala veio, mas de um ponto de vista mais baixo, mais interno. No começo ela não compreendeu o que estava sendo dito, mas entendeu que era razoável. Razoável e profundamente humano. Ela achou bonito isso de estar em um lugar onde mal se consegue parar de pé e mesmo assim manter a humanidade e a razoabilidade.

Na mordida final, a sobreposição com música sacra cria um contraste máximo, que espiritualiza o momento. Por saber que eles iam continuar se mordendo, Mariana sentiu que poderia abstrair da imagem e fechar os olhos, ascendendo à espiritualidade ordenada e racional da música renascentista.

* * *

Recebendo esse testemunho, Claudia, Armando e Hernandes lembram e enfatizam que o que foi assistido é um duo que há de ser um trio. O silêncio e o incômodo são justamente os pontos que precisam ser mantidos em aberto: são os portais de indeterminação que propiciarão a iminente entrada de Ana Mondini.



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