2. Não é bonito isso? | iN SAiO: Ser Tempo

Diário de ações do projeto Ser Tempo, da iN SAiO cia. de Arte


25, 26 e 27 de setembro
1, 2 e 3 de outubro

Complexo Cultural Funarte, Sala Renée Gumiel. O piso de madeira, gasto e sem brilho, mescla-se ao papelão macio que delimita o espaço cênico de Miêdka. Claudia, Armando e Ana aquecem-se, inicialmente introspectivos, mas progressivamente mais entrosados, mais comunicativos conforme se passam os seis dias de apresentação. A última ação que separa a preparação corporal do momento cênico é sempre um longo abraço dos três.

O trio posiciona-se em polos opostos do espaço, triangulados e sem se olhar pois, de olhos fechados, olham pra dentro. Os pés de Claudia e Armando estão nus no papelão, mas os de Ana se emaranham nas folhas: diferente deles dois, ela emerge do chão como se tivesse raízes. Sutilmente, eles balançam porque se deixam levar pelo que é ouvido, sentido e lembrado. O balanço expande lenta e gradualmente, até se tornar uma travessia ampla e circular pelo espaço, sempre de posturas tão retorcidas quanto as folhas secas: se cada folha fosse uma memória, quantas memórias são reviradas e embaralhadas, esfareladas e refeitas em Miêdka?

Foto: Hernandes Oliveira
Foto: Hamilton Ramos

Miêdka é uma ode à não linearidade da memória. Uma dança em improviso que nasce da decantação das memórias do corpo, sem cair na falsa continuidade que toda escrita biográfica apenas simula. Dessa maneira, a experiência de décadas de palco e de vida do trio mostra que lembrar não é conservar, e sim atualizar continuamente aquilo que ficou, aquilo que o corpo para sempre carregará como a marca indelével do encontro.

“Não é bonito isso? ” É sim, mas de uma beleza feral 1 que requer olhos vividos para ser plenamente enxergada – ou uma outra natureza de visão. “Não é bonito isso? ” Claudia insistia ferozmente no texto de Escute as feras (2021) e nessa frase quando se tornava bicho, e Armando também bicho a repetia mais suavemente, sonhadoramente, enquanto Ana tirava de suas entranhas um canto-lamento ancestral que não vinha de Portugal, vinha de um tempo-espaço tão distante que não se podia especificar sua origem. “Não é bonito isso? ” É bonito presenciar os paradoxos de humano-bicho, sagrado-profano, visível-invisível que se manifestam na obra e em sua metamorfose em audiodescrição. Nesse dia, a grata presença de um grupo de pessoas com deficiência visual trouxe também a visão de um cão-guia na plateia: enquanto seu dono enxergava com olhos feitos de palavra e sonho, o animal via a si mesmo nas mordidas insaciáveis do trio.

Na última apresentação, diferente dos ensaios sem Ana, a questão já não era terminar de dançar cedo demais, mas de não querer terminar: eles se alongavam antes da última mordida, estendiam o suspense que antecedia o encontro deles três, e assim ecoavam a frase fatídica de João Fiadeiro e Fernanda Eugénio em O encontro é uma ferida (2012): “Viver juntos é, tão somente, adiar o fim”.


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  1. Feral: animal que deixou de ser domesticado e passou a ser selvagem, natural ou indomável (Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Assilvestrado). ↩︎
Referências

EUGENIO, F.; FIADEIRO, J. O encontro é uma ferida. Excerto da conferência-performance Secalharidade de Fernanda Eugenio e João Fiadeiro. Lisboa: Culturgest, jun. 2012. Não paginado. Disponível em: https://clinicand.com.br/o-encontro-e-uma-ferida/.

MARTIN, Natassja. Escute as feras. Tradução de Camila Vargas. São Paulo: Editora 34, 2021.

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