3. A dança dos corpos maduros | iN SAiO: Ser Tempo

Diário de ações do projeto Ser Tempo, da iN SAiO cia. de Arte


26 de setembro

Ainda na sala Renée Gumiel da Funarte, habitando o mesmo espaço no qual Miêdka acabara de acontecer, o trio formado por Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini juntou-se à professora e pesquisadora Ana Terra e à artista de dança e teatro Mariana Muniz para um bate-papo intitulado Etarismo na Dança: a Potência das Idades. A ação, idealizada pela diretora da iN SAiO Claudia Palma, incentivou os artistas, convidados e plateia a reunirem-se em torno do ato de ouvir, refletir e contribuir com novos pontos de vista a respeito da relação infelizmente ainda polêmica entre a dança e o passar do tempo no corpo.

Sob uma perspectiva acadêmica, Ana Terra enfatizou que o atraso de abordagem do etarismo nas universidades revelaria um preconceito ainda maior que o observado em diversas pautas sociais: historicamente, as questões sobre capacitismo e deficiências permeiam as discussões universitárias há bem mais tempo. Diante disso, Terra questiona: “como haver dúvida de que corpos velhos dançam?”. Talvez não se trate de dúvida, mas de vivermos em uma sociedade na qual os valores da juventude balizam valores estéticos da arte dançada: dizer que uma dança é boa porque tem variedade de movimentos, amplo alcance do espaço, agilidade e virtuosismo técnico não seria o mesmo que dizer que é uma dança de corpos jovens?

Ana Terra também disse que as pesquisas sobre dança na terceira idade são realizadas, em sua maioria, sob o olhar utilitário da saúde: dançar melhora dores corporais e postura, aprimora coordenação motora, promove interação e evita isolamento social. É claro que a dança oferece essas contribuições – independente da idade de quem dance – no entanto ainda é preciso enfatizar as contribuições poéticas e estéticas que só a dança dos corpos maduros pode oferecer.

Trazendo o olhar do fazer artístico, Mariana Muniz esteve presente no bate-papo não só pelo tema do etarismo, mas como testemunha que viu Miêdka nascer e crescer. Relembrou-se de seu exercício de visão, sensação e imaginação, de quando foi convidada a assistir os ensaios iniciais da obra.

Inicialmente bailarina clássica – tendo estado com Claudia, Armando e Ana no Balé da Cidade de São Paulo e na Cia. 2 -, com o chegar da idade Mariana entendeu que para continuar a ser artista seria necessário se cuidar, e continuar diferente. Nesse sentido, ressaltou a importância da educação somática (Eutonia e Body Mind Movement), por expandir a consciência da relação mente-corpo, abrir possibilidades crativas e proporcionar um novo sustento ao corpo que envelhece. Ela criticou o mau costume de se comparar a dança ao esporte, que ao dar peso à performance acaba por ignorar a expressividade: “Nós não somos jogadores de futebol, não somos atletas. Se somos atletas, somos atletas do coração”.

Mariana diz que talvez haja simplesmente “falta de conhecimento e reconhecimento das habilidades e possibilidades criativas dos seres humanos, tanto físicas quanto emocionais e intelectuais com o passar do tempo”. Porém, dada a persistência do etarismo tanto na dança quanto na sociedade, é de se pensar que esse reconhecimento não revele verdades fáceis nem confortáveis. Tal como os ursos vão novamente para debaixo da terra para sonhar, nós podemos voltar mais uma vez à Miêdka para pensar:

Mariana Muniz

Em breve: próxima página do diário →
Referências

EUGENIO, F.; FIADEIRO, J. O encontro é uma ferida. Excerto da conferência-performance Secalharidade de Fernanda Eugenio e João Fiadeiro. Lisboa: Culturgest, jun. 2012. Não paginado. Disponível em: https://clinicand.com.br/o-encontro-e-uma-ferida/.

MARTIN, Natassja. Escute as feras. Tradução de Camila Vargas. São Paulo: Editora 34, 2021.

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