05 de outubro
Retornando ao primeiro espaço habitado pelo projeto atual, a iN SAiO desloca-se do Complexo Cultural Funarte de volta à Escola de Dança de São Paulo (EDASP) para um último ensaio geral aberto de Miêdka. O trio foi recebido pela turma da disciplina de História da Dança II, que compõe o 9º ano de formação da escola e é ministrada pela prof. Paula Petrecca.
Há algo de intimista em assistir ensaios, e também de sincero: na falta de iluminação, cenário e figurinos, o que é perdido em caracterização ganha-se em proximidade entre artistas e plateia, proximidade essa que pretendeu transpor a grande distância etária que existe entre os dois lados. Após uma apresentação completa do trio, Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini abriram-se para exposição de suas trajetórias e conselhos profissionais, numa aula de história da dança que já não se lia nos livros, mas na presença viva deles três.
Claudia e Armando relembraram seus tempos de bailarinos clássicos, quando se conheceram no Balé Cisne Negro em uma remontagem do balé Coppélia (1870). Eles riam ao lembrar da condição técnica de Claudia ao dançar nas pontas: “Depois eu vi que era uma bailarina maravilhosa, mas não para o balé”. A formação clássica, no entanto, não foi posta em detrimento da contemporânea em nenhum momento. O trio concorda que agora eles já estão mais libertos, mas que precisaram passar por essa etapa formativa antes que pudessem se libertar das formas tradicionais de dança.
Vê-se novamente que é falsa a dicotomia entre formação e libertação na trajetória de Ana, justo no ponto em que se tornou coreógrafa no Balé da Cidade de São Paulo: “aí começa a tragédia da minha vida”, disse Ana, e todos riram. Riram porque entenderam que Ana não usava a palavra ‘tragédia’ de acordo com o senso comum, mas talvez num senso mais nietzscheano de síntese dos opostos, o sentido de quem lida visceralmente com o caos e o cosmos que é a criação artística. Coreografar, para Ana, era custoso e fascinante, dava medo e coragem na mesma proporção, e o que a mantinha no caminho era a certeza de que sua alma é quem queria fazer isso. Dizia ela, então, aos jovens bailarinos da EDASP:
Lembrem-se: vocês são vocês. Aprendam tudo o que puderem, assimilem tudo porque depois a gente se liberta, mas com conteúdo. Aprendam e sejam vocês mesmos. Há um eu enorme na alma, que pede, e é só saber escutar.
Ana Mondini
Sendo coreógrafa, Ana conheceu Claudia e Armando em meados da década de 1980 como seus bailarinos, sua matéria-prima de criação. Ambos se entregaram plenamente aos processos, e se lembram até hoje do ato de amor e profunda confiança que é ser instrumento de uma força criativa com a qual se tem a dádiva da identificação. O trio recomendou aos novatos que busquem profissionalmente tanto o caminho institucional quanto o independente, que não esperem ser reconhecidos apenas pela técnica, que se alimentem de todas as artes e que, assim como eles, busquem dançar junto com quem faça ressoar o seu ser.
Para saber mais sobre Ana Mondini, leia a primeira página do diário de 2023.




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Referências
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou Grécia e o pessimismo. 2ª edição. Tradução de Carlos Antonio Braga. São Paulo: Editora Escala, 2011.


